Peça estreia com a montagem colaborativa da oficina Teatro Elétrico, do Grupo Liquidificador, refletindo de forma crítica e tragicômica sobre a masculinidade e valorizando a obra de escritora brasiliense.
Era livro, agora é peça de teatro. “Homens que nunca conheci”, obra da autora brasiliense Maíra Valério, lançada em 2020 pela Editora Patuá, chega aos palcos por meio de uma adaptação do Grupo Liquidificador, como parte da Oficina de Montagem Teatro Elétrico. A peça, que mantém o mesmo nome do livro, ficará em cartaz de 27 a 30 de novembro, no Teatro Mapati. As sessões acontecem quinta e sexta às 20h, e sábado e domingo às 16h e 20h, todas com ações de acessibilidade.
A formação foi conduzida pelos integrantes do Grupo Liquidificador: Fernanda Alpino, Fernando de Carvalho, Larissa Souza e Ana Quintas. Reunindo experiências práticas e acadêmicas, o grupo desenvolveu um processo colaborativo e imersivo que levou os participantes a vivenciarem todas as etapas da criação de uma montagem teatral, da dramaturgia ao figurino, ao longo de quatro meses de trabalho coletivo.“A troca e o incentivo à autonomia e à inventividade dos participantes é uma marca registrada do Teatro Elétrico. Unindo referências utilizadas pelo Grupo Liquidificador com procedimentos adaptados à partir das demandas trazidas pelas participantes, o curso sempre se renova e se atualiza a cada turma”, afirmou Larissa, integrante do coletivo. “Neste ano, mergulhar no universo da brasiliense Maíra Valério foi um deleite ácido e divertido. E um terreno fértil para transcriação cênica dessa ótima obra literária”, acrescentou. “O semestre do curso foi muito frutífero, proporcionou que artistas com formações diversas nas artes cênicas desenvolvessem um vocabulário em comum. O coletivo criou uma dramaturgia fiel ao material original do livro e ao material criado pelas participantes ao longo do processo”, compartilhou Fernanda, também do agrupamento.
Valorizando a produção da própria cidade
Realizada pela primeira vez em 2016, a oficina já formou seis turmas. Neste ano, o coletivo escolheu dar vida a uma criação que nasce do mesmo território que ele, Brasília, valorizando e fortalecendo o que é produzido na própria cidade.“Homens que nunca conheci” apresenta um olhar crítico e sensível sobre a masculinidade e suas contradições. A partir de figuras que revelam diferentes nuances, da violência à fragilidade e do egoísmo à ingenuidade, o espetáculo constrói uma reflexão tragicômica sobre comportamentos e estruturas presentes no cotidiano, convidando o público à observação e à reflexão sem cair em proselitismos. “O Teatro Elétrico é um espaço maravilhoso que permite que façamos todas as loucuras necessárias para construção dessa nossa montagem. A condução de Fernanda, Larissa e Fernando é carinhosa, cuidadosa, paciente, mas também é provocadora. Esse curso possibilita, com o engajamento do aluno, um crescimento artístico perceptível. Ter muitas pessoas no elenco, diversas vivências diferentes, diversos pontos de partida de cada artista possibilita a mistura de coisas grandiosas e muito bonitas”, celebrou Gaia Albuquerque, participante do curso.
Cuidado: uma autora viva está sendo montada
O público é convidado a conhecer esta montagem potente e contemporânea, inspirada na obra de Maíra Valério. E, como alerta bem-humorado, vale prestar atenção ao conselho de Cristiano Moutella, outro participante da formação: “Cuidado. Nunca monte uma autora viva. Ela pode ser hilária e ácida e tratar de assuntos que te fazem chorar na madrugada. Maíra Valério foi adotada pelo Teatro Elétrico porque sabe juntar cheesecake e siririca. Sabe dizer coisas que não temos coragem, sabe falar muitas línguas, sabe ouvir muitas vozes. E existe no ano de 2025. Cuidado. Nunca monte uma autora viva.”
Oficina de Montagem Teatro Elétrico
Entre agosto e novembro de 2025, aconteceu mais uma edição da Oficina de Montagem Teatro Elétrico, promovida gratuitamente pelo Grupo Liquidificador, coletivo que celebra, este ano, 15 anos de atuação no Distrito Federal. O projeto, pioneiro na investigação do teatro performativo, ofereceu aos participantes uma experiência completa de criação teatral, da concepção à apresentação de um espetáculo original criado e encenado pelos próprios alunos. Em 2025, além da gratuidade, todos os alunos selecionados receberam ajuda de custo para incentivar a participação e a permanência ao longo de todo o processo. Também foram reservadas vagas para pessoas com deficiência, negras, indígenas, quilombolas e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+, reafirmando o compromisso do grupo com a diversidade e a inclusão. As aulas aconteceram no Ateliê EcoArte Balaio do Cerrado, espaço cultural em meio à natureza localizado no SHIP, Asa Sul.
Conheça o Grupo Liquidificador
Este ano, o Grupo Liquidificador celebra 15 anos de (r)existência, construindo uma frutífera trajetória no Distrito Federal. Mais do que um coletivo teatral, o agrupamento se constitui como uma comunidade em busca de sua própria identidade, contaminada pelas gambiarras e estéticas emergentes da criação em terrenos não favoráveis, desafiando normas estabelecidas e as convenções da chamada “boa arte acabada”.
Neste espaço de experimentação e pesquisa, o Liquidificador explora sistemas e jogos que questionam formas e códigos de linguagem já legitimados pelo status quo. Cada trabalho criado é impregnado de afeto e significado, impulsionado por uma vontade anárquica de desafiar e subverter as regras instituídas. Até o momento, o grupo já deu vida às seguintes criações: “A Cartomante” (2010), “ULTRA-ROMÂNTICO” (2012), “Aquário” (2014), “Janta 1” (2015), “Janta 2” (2016), “TecnoMagia” (2017), “Jardim das Delícias” (2018), “A Resistível ascensão de Arturo Ui” (2019) e “Seis Perfis em busca de uma plataforma” (2025). Além disso, está prevista a estreia de uma adaptação própria de “Frankenstein” para o ano que vem.
Para além das próprias criações, o compromisso do coletivo com a cena teatral inclui apoiar grupos de fora de Brasília, organizar workshops e encontros, promover as festas da Confraternização do Teatro de Grupo de Brasília e, claro, realizar as oficinas Teatro Elétrico.
O Grupo Liquidificador é um grupo de teatro performativo que se propõe a criar olhares sobre o mundo contemporâneo por meio de uma relação que retire o público de um lugar-comum. Ao longo desses anos, a intenção tem sido a construção de uma utopia própria, distante das pretensões da capital moderna — um mergulho em uma ilha pirata, em uma zona autônoma temporária.
SERVIÇO:
HOMENS QUE NUNCA CONHECI
Datas: Quinta a domingo, 27 a 30 de novembro
Horários: Quinta e sexta: 20h Sábado e domingo: 16h e 20hAcessibilidade: Interpretação em Libras em todas as sessões Audiodescrição: sábado e domingo às 16hEntrada: GratuitaIngressos: Retirada no Sympla, a partir do dia 20/11
Local: Teatro Mapati (SHCGN 707, Bloco K, Casa 5, Asa Norte, Brasília-DF)Realização: Grupo Liquidificador – Teatro Elétrico
Direção: Fernanda Alpino, Fernando de Carvalho e Larissa Souza
Iluminação: Larissa Souza
Produção Executiva: Ana Quintas
Gestão Administrativa: Elisa Mattos (Desvio Produções)
Trilha Sonora Original: Caio Fonseca (Estalo Studio)
Adaptação do livro homônimo de Maíra Valério
Elenco:Ana Afonso
Antonío Chaves
Cristiano Moutella
Débora Almeida
Diana Belloni
Gaia Albuquerque
Igor BenincasaI
lgner Boyek
Leonardo Vieira Teles
Milca Orrico
Monick Miranda
Renata Canto
Wander Mendes
SAIBA MAIS
Instagram: @grupoliquidificador / @cursoteatroeletrico
grupoliquidificador@gmail.com
A realização desta edição do projeto foi viabilizada pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC – DF).
Crédito das fotos: Tatiana Reis