Exposição Poética Campesina une arte rural do Brasil e Espanha no Espaço Cervantes

 

Em cartaz de 8 de junho a 30 de julho, mostra que homenageia Diego Ceano e Antônia Dumont ressalta ligações históricas e sociais entre a arte campestre dos dois países

 

O Espaço Cultural Barthô Naïf, em parceria com o Instituo Alvorada Brasil, inaugura em 8 de junho a exposição internacional coletiva Poética Campesina – Um mundo de valores, recordações e aspirações, que reúne obras do artista plástico espanhol Diego Ceano e da mestra em bordados Antônia Dumont, grandes homenageados da mostra, e dos brasileiros Jocelino Soares, Codo, Jair Lemos, Shirlene Pérola Negra, além dos coletivos de bordadeiras Linhas da Resistência e Matizes Dumont. A exibição será sediada na galeria do Instituto Cervantes, patrocinador cultural do projeto, ao lado da Embaixada da Espanha

 

Entre pinturas e bordados, a exibição estreita laços entre o Brasil e a Espanha e reforça elos de ligação estéticos, históricos, sociais e afetivos entre os dois países, por meio da expressividade da arte, dos artistas e do povo do campo. Os trabalhos retratam a fé, as festas religiosas, as colheitas, a gastronomia, os costumes, os folclores e os valores solidários e comunitários do povo campesino. 

 

Literatura espanhola, canções de trabalho, trovas e hábitos alimentares integram um universo pleno de sotaques e vocabulários locais que reafirmam a importância do trabalho e da cultura no campo, onde as manifestações plásticas se tornam um denso e lírico gesto de mergulho no meio rural. A poética campesina se manifesta como resistência, memória e ancestralidade na luta pela terra e preservação de tradições, rompendo estereótipos de dor e propondo o campo como local de vida pulsante.

 

“Pensar a Poética Campesina como uma ponte entre Brasil e Espanha significa discutir o direito a habitar a terra e a permanecer nela não só como um ato econômico, mas, também, cultural. As artes visuais, nesse sentido, valorizam a realidade do camponês no passado, a sua existência presente e a construção de seu futuro”, afirma Oscar D’Ambrósio, membro do conselho curatorial ao lado de Odécio Rossafa, Shirlene Pérola Negra, Juliana Cândido, Sávia Dumont e Beatriz Dignart

 

A vernissage, no dia 8, a partir das 19h, contará com shows musicais de Gaby da Viola e Daiane da Viola, coquetel com comidas típicas como a queima do alho (comida campeira tradicional dos boiadeiros) e migas (prato de origem humilde que reaproveita sobras de pão amanhecido, típica dos pastores). As atividades inaugurais contarão também com uma roda de conversa com os artistas, especialistas e produtores culturais na terça-feira (9), das 14h30 às 16h30, e uma oficina interativa com as bordadeiras na quarta (10), das 14h30 às 17h. 

 

Os artistas e as obras, por Oscar D’Ambrósio

 

A identidade Andaluza de Diego Ceano

Natural de Málaga, Diego Ceano celebra, em suas telas, a memória do mundo rural andaluz. Atua como escritor, historiador e pintor. Ex-funcionário da Diputación Provincial de Málaga, órgão que apoia a preservação da cultura rural na região, desenvolve um trabalho literário e visual focado no resgate de crônicas, personagens e paisagens que compõem a alma da cidade e de seus arredores. Captura, assim, com tonalidades vívidas, a essência do cotidiano camponês espanhol, retratando, entre outros temas, vilarejos, campos e a arquitetura das residências, mostrando ainda tradições populares, evocando uma atmosfera de nostalgia e pureza em relação ao passado rural.

 

Antônia Zulma Diniz Dumont, mestra dos Bordados 

 

Antônia Zulma Diniz Dumont – Ioiô, como a chamava o pai Floriano Diniz, nasceu pessoa alegre, encantadora, espirituosa, irônica em seus comentários. Muito querida pelos pais, pelos irmãos, irmãs, cunhadas e pelo marido Demóstenes Dumont Vargas –  esse amor principado aos 16 anos. As flores da bordadeira chegam com as estações. Surgem na poeira a cada curva da estrada de chão ou da estrada de ferro – Tudo quanto era estação salpicada de florescência a mostrar uma certa expansão dos lilases, dos amarelos e dos tons e das águas do cerrado. Assim foi ampliada para sempre a arte de bordar, feita de curiosidade entre banhos de córrego, laçadas azuis em volta de um buquê em floração. 

 

A chegada do amado, a meninada crescendo, a florir em volta das caixas de linhas e dos riscos. A vida seguindo. Nas caixas e nos guardados, os buquês de papoulas vindos do outro lado do mar fazendo par com lírios do brejo e amor-perfeito na vida da jovem mulher, em seu fazer de bordar flores.

 

Antônia sempre olhou para formas, cores, flores, com interesse de quem quer ver além da pétala, entre os fios d’água do rio azul cheio de céu que é o São Francisco. Em cada floração, desde as miudinhas de beira de calçada até as de monturo, as flores de romã, as rosas “La Família”, os cravos do quintal de vó Bilu. Em cada uma ela soube descobrir brincadeiras para seus bordados.

 

Uma Certa Estrada Boiadeira, de Jair Lemos

A Série Uma certa estrada boiadeira, de Jair Lemos, apresenta dez pinturas que enfocam a antiga rota comercial que conectava o Mato Groso ao Noroeste Paulista entre os séculos XIX e XX. Esse percurso era utilizado pelas comitivas que conduziam o gado até os frigoríficos de Barretos. As imagens constituem um convite a uma reflexão sobre o desenvolvimento regional e a identidade cultural moldada pelas estradas de pó vermelho ao ritmo lento dos bois. As telas valorizam o dia a dia dos boiadeiros e das comitivas, remetendo à natureza e aos vilarejos que surgiram ao longo do caminho, sendo um documento poético visual que preserva as tradições rurais.

Codo e a Revolução Campesina

 

Os trabalhos de Codo lidam plasticamente com episódios e personagens da Guerra Civil Espanhola (1936–1939) na perspectiva de como existem elos entre esse momento histórico e a luta campesina espanhola. A luta dividiu a Espanha entre o governo republicano democraticamente eleito e os rebeldes nacionalistas liderados pelo general Francisco Franco, terminando com a vitória destes últimos e a instauração de uma ditadura fascista que durou quase 40 anos. O confronto é amplamente considerado pelos historiadores como um prelúdio para a Segunda Guerra Mundial. Enquanto os republicanos (legalistas) eram defensores da Segunda República Espanhola – incluindo a esquerda política, liberais, comunistas, anarquistas e sindicatos, recebendo apoio militar direto da União Soviética e a ajuda voluntária de milhares de civis estrangeiros integrados nas chamadas Brigadas Internacionais –, os nacionalistas (sublevados) reuniam a ala conservadora do exército, grandes proprietários de terras, a Igreja Católica e o partido fascista Falange, recebendo apoio bélico da Alemanha Nazista de Adolf Hitler e da Itália fascista de Benito Mussolini. As obras de Codo citam justamente episódios nesse contexto de polarização e violência que encontra muitos reflexos nos conflitos na zona rural da Espanha.

 

O ser caipira de Jocelino Soares

Natural de Neves Paulista, região de São José do Rio Preto (SP), o artista visual Jocelino Soares pesquisa visualmente a zona rural, profundamente vinculada com as suas memórias de infância. Retrata colheitas na perspectiva da vida cotidiana de quem está na lida do campo, com um intenso trabalho nos jogos de luzes e de claros e escuros, além de folias de reis, manifestações sagradas presentes no cotidiano rural, criando conjuntos em que as cores celebram a força da terra, o lirismo, a resiliência e a resistência do ser e do viver caipira. 

 

Sementes de história de Shirlene Pérola Negra

 

Natural de Cajuri (MG), a artista visual, curadora e gestora cultural  Shirlene Pérola Negra atua em ações relacionadas no segmento da arte popular, valorizando a cultura de matriz africana como maneira de expressar uma relação visceral com as manualidades e artesanias como maneira de construir uma interpretação do mundo.

 

Seus trabalhos valorizam o fazer artístico enquanto uma criação que instaura pontes entre pessoas e regiões de maneira horizontal e democrática, trazendo para o centro do cenário ancestralidades e memórias pessoais que se universalizam por serem retratos do ato de existir no mundo. 

 

Grupo Matizes Dumont

Uma das maiores referências brasileiras na intersecção entre arte têxtil, poética campesina e preservação cultural, o grupo Matizes Dumont é composto por membros da família Dumont, de Pirapora (MG). O grupo transformou o bordado tradicional em uma linguagem artística contemporânea conectada com a bacia do Rio São Francisco e com pássaros, flores e o curso das águas que aludem ao cerrado, representados com multiplicidade de cores e texturas. Os bordados também trazem como temática o misticismo, as lendas e a religiosidade dos povos ribeirinhos e sertanejos. O uso de diferentes pontos cria relevos que dão vida ao dia a dia do campo, transformando o tecido em uma topografia de afetos, já que o trabalho é feito a muitas mãos, reforçando a ideia de que a arte feita no campo é, por essência, um ato comunitário e familiar. Ao manter vivo o bordado manual em um mundo industrializado, o grupo preserva o saber das bordadeiras do interior e promove a sustentabilidade cultural da região.

 

Coletivo Linhas da Resistência

Grupo de artistas, ativistas e educadores, o Coletivo Linhas da Resistência utiliza as artes têxteis como ferramentas de denúncia política, preservação da memória e resistência social. Um dos objetivos é resgatar saberes manuais tradicionalmente domésticos e levá-los para o espaço público como forma de protesto. O bordado não é visto, portanto, como adorno, mas como uma forma de escrita visual que enfoca a luta pela terra, a violência contra a mulher, o racismo e a defesa da democracia. Os trabalhos remetem a tradições rurais e às mãos de mulheres que, historicamente, usaram a agulha para sustentar suas famílias e culturas. O grupo, nesse sentido, organiza encontros em praças e ocupações, onde o ato de bordar convida ao diálogo e à conscientização política e grandes panos bordados são carregados em marchas pelas cidades com mensagens que nasceram no campo ou nas periferias.

 

Serviço

 

Exposição Poética Campesina – Um mundo de valores, recordações e aspirações. De 8 de junho a 30 de Julho no Instituto Cervantes (SEPS 707/ 907 Lote D). De segunda a sexta, das 9h às 21h, e sábados, das 9h às 12h. Entrada franca, livre para todos os públicos. Informações pelo e-mail barthonaif@gmail.com ou pelo número 61 99661 1935 (Odécio Rossafa, cocurador da mostra).

 

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Um comentário em “Exposição Poética Campesina reúne obras do espanhol Diego Ceano e artistas brasileiros no Instituto Cervantes

  1. O Evento promete uma excelente programação cultural para aqueles que escolher ir ao Instituto Cervantes a partir do dia 08.06.26. Parabéns a Embaixada da Espanha e a Direção do Inst. Cervantes.

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